Opinião: O Professor de Quéops, de Albert Salvadó



O Professor de Quéops
de 
 
Edição/reimpressão: 2003
Páginas: 203
Editor: Terramar
  





Sinopse: 
Eis uma história da época do faraó Sneferu e da rainha Heteferes, pais do futuro faraó Quéops (ou Khufu), que mandará construir a mais impressionante das pirâmides do Egipto. Mas trata-se também da história de Sedum, escravo que se tornará professor de Quéops. Ora foi precisamente com esta obra que Albert Salvadó - agora revelado ao público português - venceu o II Prémio Néstor Luján de Romance Histórico, em 1998.
Albert Salvadó demonstra ser senhor de uma notável capacidade efabuladora, sem nunca perder de vista a consistência de uma sólida infra-estrutura histórica. E, no entanto, este seu romance põe a nu toda uma trama narrativa, engenhosamente arquitectada, em que se sucedem os episódios dominados pela intriga e a conspiração, pelo amor e a paixão, pelo mistério e a aventura, e também pelo assassínio.

Rating: 3/5
Comentário: Albert Salvadó foi o único autor de Andorra que encontrei traduzido para o projecto "World Book Tour" e foi portanto a minha escolha para o mês de Maio.
Das várias escolhas disponíveis, optei por ler um livro ligeiro e pequenino, até porque foi um mês de mudanças a nível pessoal, e com pouco tempo para enveredar em leituras mais complicadas.
A expectativa cumpriu-se e o autor manteve um estilo ligeiro e corriqueiro numa história contada em jeito de conto e com bastante fluidez assim como rapidez narrativa. A sensação geral coincidiu mesmo com essa nuance, e não pude deixar de ler esta história com um enredo com um estilo narrativo semelhante ao aplicado quando contamos histórias a crianças. Ao longo das páginas vamos acompanhando a vida de Sedum, desde o seu nascimento até à sua morte, com vários saltos temporais e pouca profundidade e envolvimento emocional. Este personagem passará por várias etapas e desafios na sua vida, mediante o contacto que estabelece com diversas pessoas, algumas representando obstáculos à sua sobrevivência pacifica e bem intencionada, tão por si almejada. É uma típica história de triunfo da inteligência e bondade sobre a astúcia e ganância, com uma passagem de moral mais ou menos intencionada e transmitida tal e qual num cenário de fábula, com um herói sofredor e vitimizado pelo acaso, cuja sorte varia consoante as pessoas com que se cruza.
Naturalmente, passando-se no Antigo Egipto, não deixamos de ter contextualização social e comportamental que facilita a compreensão da realidade das personagens e o seguimento das suas histórias. Ainda assim, passam quase que despercebidas, de tal forma que retirando pequenos elementos, esta mesma história quase que poderia ter-se passado em qualquer contexto histórico.
Não será certamente um livro que me ficará na memória, mas não posso deixar de dizer que me diverti a lê-lo, nem que seja como elemento de descompressão (especialmente porque o comecei e terminei numa tarde em que estava extremamente cansada e a necessitar de desligar o cérebro da realidade por umas horas).

Sobre o autor: "Albert Salvadó (Andorra-a-Velha, 1 de fevereiro de 1951) é um escritor andorrano. Estudou engenharia industrial e escreveu contos infantis, ensaios e novelas.
Destaque para suas novelas históricas, onde mistura realidade, ficção e mistério. Suas obras foram publicadas em vários idiomas (catalão, castelhano, francês, português, grego, tcheco e outros) e ganhou numerosos prêmios. Entre eles: Prêmio Carlemany, Prêmio Fiter i Rossel do Círculo das Artes e das Letras, duas vezes o Prêmio Néstor Luján de novela histórica.", in Wikipedia

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

Opinião: A Educação de Eleanor, de Gail Honeyman



A Educação de Eleanor

de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 328
Editor: Porto Editora
  





Sinopse: 
Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal – ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond – o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras – e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua. A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Rating: 4/5
Comentário: Gail Honeyman esteve nas bocas do mundo no ano passado com o lançamento do livro "Eleanor Oliphant is Just Fine", agora editado em Portugal pela Porto Editora. Confesso que não percebia tantos galanteios ao livro, especialmente porque a sinopse me parecia repetida de uma história já muitas vezes contada. A inserção no enredo foi agradável, mas ainda assim não dispunha de uma enormidade ou genialidade que me fizesse ganhar toda essa afeição à narrativa. Até que me apercebi já presa e com desejo de que Eleanor ficasse, de facto, "just fine" (bem).
Ensinaram-me as aulas de sociologia no secundário a importância da convivência e dos nossos elementos de referência para a formação da nossa personalidade enquanto ser social. Por esse motivo, acompanhar a Eleanor foi um exercício premeditável mas ainda assim com capacidade de criar uma empatia enorme com esta mulher.
Sabendo de antemão que muitas das suas reacções se devem de facto à ineficiência das suas relações sociais, algumas interlocuções com o mundo dito exterior não deixam de ser algo cómicas. É impossível não nos rirmos de alguns dos devaneios desta mulher, sem no entanto evitar que depois surja algum remorso de culpa, por nos lembrarmos enquanto leitores como é que esta mulher chegou a este estado propenso a fragilidades e alguma incompreensão por parte do mundo exterior.
Mas é também no seguimento da narrativa que vamos descobrindo que Eleanor é muito mais do que uma mulher só, que a personagem que está montada e a sustenta há muitos anos é tão frágil como as dores internas que carrega consigo, e que estamos presente uma mulher com uma enorme necessidade de amor, embora nem esta o saiba.
É através das pequenas surpresas que um momento inesperado trará, entrecruzadas numa cadeia de encadeamentos improváveis mas com enorme significado, que Eleanor se lembrará da importância do calor das relações humanas e do quanto este pode ser reconfortante.
É também a partir deste ponto que vamos tendo acesso à mulher por detrás da persona, e que o discurso narrativo também sofre a sua transformação, quase como se toda a análise prévia servisse como enorme introdução a este momento de desenvolvimento. A partir daqui é impossível desligar-nos desta personagem e desejar-lhe o melhor com todas as nossas forças, mesmo que esta não seja sempre a companhia mais agradável. E são os pequenos actos de bondade de estranhos, que a acolhem como um elemento pertencente ao  seu ciclo de relações que acabam de certa forma por fazer brilhar, por contraste, toda a realidade eminente a destruturar-se e uma representação construida num castelo de cartas a ruir.
A dor da personagem é pulsante, estamos com ela e vivemos com ela os momentos de encontro e confronto entre a realidade e o mundo por si idealizado.  É também neste momento que se dá uma pequena reviravolta, a qual não vou relatar para não vos estragar a surpresa. Até porque esse é o elemento-chave de todo o processo de construção desta personagem: o poder de submissão que os relacionamentos tóxicos podem causar no ser humano. A forma como este fio narrativo é conduzido, de forma sub-reptícia mas sempre constante, levantou-me algumas questões ao longo da narrativa e não foram poucas as vezes que desejei que ela se libertasse. Só não tinha noção de quão grande era a prisão de Eleanor.
Por todos estes momentos, "A Educação de Eleanor" revelou-se um livro mais surpreendente do que inicialmente esperava, sem quaisquer pretensões ou moralismos, mas com uma história muito humana, e cheia de esperança.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.