Opinião: Fala-me de um Dia Perfeito, de Jennifer Niven



Fala-me de um Dia Perfeito
de Jennifer Niven
 
Edição/reimpressão: 2015 
Páginas: 360
Editor: Nuvem de Tinta
  




Resumo: 
Violet Markey vive para o futuro e conta os dias que faltam para acabar a escola e poder fugir da cidade onde mora e da dor que a consome pela morte da irmã. Theodore Finch é o rapaz estranho da escola, obcecado com a própria morte, em sofrimento com uma depressão profunda. Uma lição de vida comovente sobre uma rapariga que aprende a viver graças a um rapaz que quer morrer. Uma história de amor redentora
Rating: 5/5

Comentário:  Há livros que nos deixam sem palavras. Sem saber o que escrever ou como escrevê-las. Sem saber como é que se transpõem emoções, arrebatamentos e todo o desencaixe que só um livro sabe colocar numa singular opinião. "Fala-me de Um Dia Perfeito" teve esse dom em mim e confesso que ainda não me sei totalmente refeita para efetivamente o descrever como ele merece. Foi uma leitura que me deixou sem chão, e não há muito mais a acrescentar para além disso.
Com o nome original de "All the Bright Places",este volume foi um dos grandes vencedores dos prémios anuais do Goodreads em 2015, pelo que as expectativas sobre ele têm vindo a aumentar nos últimos tempos. Inicialmente achei que a capa portuguesa pudesse ser diferente para aligeirar o conteúdo, mas a verdade é que após percorrer todas estas páginas, considero-a bastante reveladora da estória.
Para mim, a leitura foi conduzida  pela sinopse que me deixou bastante curiosa. Que caminhos de desespero, angústia e perdição encaminham duas pessoas com percursos diferentes para o mesmo local, à mesma hora, e com a mesma intenção? Esta é a premissa, que embora não tão explícita no resumo da edição portuguesa, é apresentada na versão internacional. É esta versão, este olhar humano mas sem subterfúgios que ganhamos logo desde a primeira página e que nos persegue (sim, persegue e sem dó) até à última frase.
Violet é uma rapariga perdida, destroçada, a quem a perda de uma irmã roubou o sonho, a esperança e o mundo como o conhecia (muitas vezes visto através dos seus olhos), e que procura desaparecer, deixar de sentir e de se sentir só, contando os dias em que possa desaparecer do contexto que lhe causa suplício, sem querer admitir para si que qualquer lado em que esteja não a irá salvar, senão quando aceitar a dor que sente e aprender a viver com ela, libertando-se dessa forma.
Theodore é A personagem deste livro. Completo e complexo, cheio de nuances, cores, numa mescla constante de luz e sombra, é a dor e a redenção, a angústia e a procura incessante pelo dia melhor, é a luta demonizada consigo próprio e com o mundo em geral, e o motor, que coloca o universo deste livro a funcionar.
O momento em que estas duas personagens se encontram é transformador certamente, e o poder de as unir e da (não) transformação da realidade de cada um mostra como por vezes uma pessoa pode transformar a nossa vida, e que um minuto é o suficiente para que isso aconteça. A dicotomia entre as duas realidades, entre as suas ligações familiares e as amizades de cada um, onde a transposição de uma realidade acolhedora e reconfortante se altera com um sopro para um, enquanto é uma recusa para outra (porque de alguma forma lhe diminui a dor interior que esta se obriga a sentir) está montada com uma mestria que nos abana, agarra a cada página e dificilmente nos deixaria indiferentes. É impossível que o faça a alguém, sinceramente.
Ao longo de todas as páginas somos confrontadas/os com uma versão muito real do que é conviver com uma pessoa que sofra de uma doença mental (e que fique claro que obviamente, não considero que todos os comportamentos sejam semelhantes de individuo para individuo), que é enunciada na sinopse como depressão mas que em diante, e desculpem-me este pequeno spoiler que nada altera a vossa leitura mas que pode ajudar leitores que ou não tenham convivido de perto com pessoas que sofram desta doença ou que possam passar por ela, se revela como doença bipolar. Os adormecimentos e as fugas constantes desse estado de inércia que simultaneamente é um refúgio, o desenraizamento, as atitudes arrojadas e diferenciadas que nada são mais do que uma reinvenção de uma personalidade considerada estragada e um  grito (interior) para que o cérebro, o corpo, o organismo o processe como algo real, palpável e não iminente de ruir, o paradoxo de querer ajuda e simultaneamente recusá-la (porque ela não chega, porque ela não é adequada, porque ela não traz a sensação de realidade e vivência necessária e que por isso não poderá representar a fórmula final) são só alguns exemplos da abordagem exímia, avassaladora, sincera acima de tudo, e única - sem floreados e arabescos, que é concretizada ao longo do livro sobre esta doença. Com tanto pormenor, achei desde o início que esta recriação não poderia ter sido de alguém que não conhecesse de perto a doença (nem uma investigação traria uma visão tão apurada da mesma), pelo que não foi surpresa quando as notas de agradecimento da autora o denunciaram precisamente.
Mas não é um livro inteiramente clínico, até porque embora retrate esta realidade sem a mistificar, também não a impõe em cada frase, pelo que há espaço para o sonho, para a esperança, para o amor e para a descoberta, para o conforto e para a amizade, para a redenção e para segundas oportunidades, para a paixão e para o futuro. E para pensar e repensar o que é o futuro e o que é que ele pode fazer por nós e nós por ele, numa elaboração até poética com simplicidade e redescoberta.
O desfecho, que não irei naturalmente revelar, não foi uma surpresa para mim. Julgo que desde as primeiras páginas que vi a sua construção, e que embora compreendendo a condução a esse momento o fui processando como vendo um acontecimento em câmara lenta. Recusando a finalização, optando por aguardar por uma reviravolta, mas sabendo que a condição mais integra só poderia ser aquela. Talvez aí, nas páginas subsequentes, possa ter existido algum floreado. Mas a finalidade não é tanto de distrair ou obrigar o leitor e a leitora a sentir, porque estes já o faziam desde a primeira página, mas conduzir a uma alternância um pouco menos dura, ainda que pouco fantasista.
Violet e Theodore viveram em mim e comigo durante algum tempo após terminar neste livro. Não os esqueço, mas também fujo deles, porque embora envolventes e com uma história digna de contar, as marcas deixadas foram muitas.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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