Opinião: Crónica de uma Serva, de Margaret Atwood

Crónica de uma Serva
de Margaret Atwood 
Edição/reimpressão: 1988 
Páginas: 252 
Editor: Europa-América
Resumo:
Defred é uma serva: ovários viáveis tornaram-na um objecto precioso na República de Gilead, onde o índice de natalidade caíra para níveis perigosos. Atribuída a um comandante cuja mulher é infértil, o objectivo de Defred é simples: procriar.
Vestida de encarnado desde o véu aos sapatos, com excepção das asas brancas que lhe encobrem o rosto, Defred passa diariamente em silêncio pelos Guardiões da Fé, que controlam cada barreira. Troca senhas por comida. Visita a Muralha, onde traidores ao género e criminosos de guerra são enforcados por atrocidades, outrora legais, cometidas noutros tempos. 
À noite, no seu quarto nu, Defred recorda: hábitos curiosos e ultrapassados, como tagarelar, usar papel-moeda, correr. Coisas ilegais: mulheres empregadas, ler, o seu verdadeiro nome, amor. O amor era fundamental para tudo. Agora é irrelevante.Através dos olhos de Defred são-nos mostrados os recantos negros por detrás da fachada calma da República de Gilead: um regime que toma o Livro do Génesis absolutamente à letra, com consequências bizarras para as mulheres, assim como para os homens.

Rating: 4/5

Comentário: 
Desengane-se quem pense que este é mais um romance distópico igual a todos os outros que ultimamente tem enchido as livrarias. Crónica de uma Serva é tudo menos a típica distopia onde o bem luta contra o mal, este livro é na realidade um grito de alerta sobre o horror que as distopias podem ser e o poder que estas podem exercer sobre as pessoas.
Crónica de uma Serva, é um livro que, apesar de ter sido lançado em 1985, continua bastante actual e me assustou para lá de tudo aquilo que pensava possível. Creio que isso se deve especialmente ao facto de Defred ser uma personagem de transição de um mundo normal para um mundo completamente destruído. Ouvi-la falar de coisas simples como andar de calções e chinelos no verão, algo que é completamente proibido é assustador.
Todos sabemos que tudo o que é levado ao extremo é mau, pensemos nos extremistas por exemplo,  e isso foi o que aconteceu na Républica de Gilead, antiga cidade de Boston, Massachusetts. Lentamente e de um modo subtil, como Defred nos conta, o poder mudou de mãos e tudo se alterou e o Livro do Génesis começou a ditar a lei. As mulheres viram-se perante consequências bizarras e terríveis e os homens viram a sua vida ganhar outro sentido.
A maneira como a narrativa é tratada neste livro é algo de fascinante. O livro começa intrincado, como a própria vida de Defred e há medida que esta se vai "habituando" e se "soltando" também a escrita se torna mais leve e rápida de ler.
É um livro que amadurece lentamente e culmina num final único e inesperado. É quase um estudo da condição humana e de como somos seres completamente adaptáveis e esquecidos. Defred refere-o várias vezes ao longo da história, sente que aos poucos a realidade onde viveu durante anos lhe foge da memória. Não andava ela de calções e chinelos em vez da roupa vermelha que a tapa por completo? E a comida, de certeza que havia mais do que aquela que existe presentemente! É uma luta constante de memória vs realidade e que ajuda a tornar mais real a personagem principal desta história.
Na realidade todo o livro tem um certo sabor de uma realidade que estás prestes a acontecer. Dei por mim a questionar-me se isto se passasse em Portugal o que faria? Ficaria? Fugiria? Provavelmente fugia, nem que fosse a nado, a realidade de Defred é demasiado horrível para me imaginar a viver nela. E só posso elogiar Atwood por ter conseguido escrever o livro até ao fim.
Para concluir gostaria de dizer que este é, sem margem para dúvidas, um dos melhores livros que li este ano. Posso sempre reconhecer os bons livros pelas dores de cabeça que me dão, quando me livro me faz doer a cabeça normalmente significa que me está a fazer pensar profundamente sobre algo, enquanto livros chatos ou que não gosto normalmente me dão uma sensação de azia. Preparem-se portanto para algo úncio e que vos fará sem dúvida pensar.

  • Em Janeiro deste ano Margaret Atwood deu uma entrevista ao jornal britânico The Guardian sobre este livro e o facto do mesmo ser um livro banido para lerem a entrevista cliquem aqui.

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